A determinação social como ponte entre campo de análise e intervenção

contribuições da matriz de processos críticos à análise institucional

Autores

  • Jenifer Bianca de Melo SILVA Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.
  • Laís de Miranda Crispim COSTA Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.
  • Keila Cristina Pereira do Nascimento OLIVEIRA Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.
  • Cinira Magali FORTUNA Universidade de São Paulo – USP, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – EERP, Departamento Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem. São Paulo, SP, Brasil.

DOI:

https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.154

Palavras-chave:

Análise Institucional, Determinação Social da Saúde, Matriz de Processos Críticos, Saúde Coletiva, Marxismo

Resumo

No campo da saúde coletiva, as epistemologias marxistas têm contribuído para repensar a relação entre teoria e prática, especialmente na compreensão das instituições como expressões da totalidade social. Nesse contexto, a análise institucional (AI), desenvolvida por René Lourau e George Lapassade, propõe uma leitura crítica das instituições como formações históricas e contraditórias, que reproduzem relações de poder e ideologia. Contudo, a própria AI identifica uma dificuldade metodológica central no contexto da pesquisa-intervenção: a confusão entre o campo de análise (a instituição, sua história e estrutura de poder) e o campo de intervenção (o grupo onde a intervenção ocorre). Essa confusão leva o analista a reduzir o fenômeno institucional às dinâmicas afetivas do grupo, esvaziando seu potencial crítico e transformador. Esta prática interventiva nasce de uma demanda e encomenda do capitalismo pós-taylorista, que necessitava gerir o “fator humano”, não para transformá-lo, mas para suscitar participação, mantendo intacta a estrutura de poder. Paralelamente, a Epidemiologia Crítica latino-americana, proposta por Jaime Breilh e fundamentada no materialismo histórico-dialético, oferece a categoria de Determinação Social da Saúde e a Matriz de Processos Críticos – MPC como instrumento de análise da totalidade social. Dessa forma, o diálogo entre a AI e Determinação Social da Saúde busca ampliar a capacidade analítica e emancipatória das práticas de intervenção institucional em saúde. O objetivo deste trabalho é, portanto, demonstrar como a MPC pode ser utilizada como uma ferramenta metodológica para reconectar o campo de intervenção ao campo de análise, contribuindo para uma Análise Institucional crítica em saúde coletiva. Quanto à metodologia, trata-se de um ensaio teórico fundamentado na análise conceitual dos autores René Lourau e Jaime Breilh, com base no referencial materialista histórico-dialético. O percurso analítico desenvolveu-se em três etapas: (i) Revisão e interpretação das obras centrais de Lourau para explicitar o problema da confusão entre campo de intervenção e de análise; (ii) Exposição dos fundamentos da Epidemiologia Crítica e da estrutura da MPC; (iii) Articulação entre os dois referenciais, buscando identificar como a MPC pode operar como mediação metodológica que sustenta a práxis institucional em uma perspectiva marxista. A análise evidenciou que Lourau, em sua crítica à psicossociologia, identifica duas falhas estruturais na prática interventiva. A primeira, diz respeito a crítica sociológica, baseada em Bourricaud, que denuncia o foco no grupo “sem passado e sem território”, desconsiderando as relações de classe e a historicidade das instituições. Esta prática promove um “democratismo” técnico, ideologia que assume uma falsa reciprocidade dos interesses entre dominantes e dominados, para encobrir as oposições de classe. A segunda é a crítica psicanalítica, formulada por Pontalis e Anzieu, que revela o fechamento imaginário do grupo sobre si mesmo, transformando-o em um sonho de unidade, que funciona como mecanismo de defesa contra a análise de sua própria determinação institucional. O grupo centrado sobre o grupo, falha em sua função analítica, pois sua função inconsciente é inteiramente negativa, se mantendo preso no campo da intervenção e reduzindo o conflito institucional a problemas interpessoais do grupo. A MPC surge então como ferramenta para superar essa limitação. A MPC não se trata de um modelo estático, mas uma ferramenta dialética para analisar a reprodução social, articulando três dimensões da totalidade social: (a) a dimensão universal, que se refere aos processos estruturais de produção, às políticas de Estado e formas de dominação (capitalista, patriarcal, colonial). Esta dimensão define o campo de análise que Lourau retrata, em seu sentido mais amplo; (b) a dimensão particular, analisa as condições de vida e trabalho de grupos e classes sociais específicas, correspondendo ao campo de intervenção onde o analista atua, como um grupo de trabalhadores em sua localização territorial; e por fim, (c) a dimensão singular, que representa a expressão concreta dessas determinações no corpo, na prática e na consciência individual. A profundidade da proposta de Breilh, e sua maior contribuição para a AI, reside na compreensão da dimensão singular. Para a psicossociologia criticada por Lourau, o singular (o afeto, o conflito interpessoal) é o ponto de partida da análise. Para a Epidemiologia Crítica, o singular é um ponto de chegada, a síntese encarnada das determinações universais e particulares. O sintoma, ou a "briga" no grupo (o singular) não são apenas afetados pela estrutura; eles expressam a contradição da totalidade em sua forma fenotípica. A matriz, portanto, não é apenas um enquadramento, mas uma ferramenta para identificar os processos críticos que operam nessas dimensões, sejam eles processos destrutivos, como a superexploração da força de trabalho ou processos protetores e de resistência, como a organização coletiva. Ao situar os conflitos singulares dentro das determinações particulares e universais, a matriz então permite desvelar as relações de poder e as contradições de classe que atravessam o espaço institucional. O analista, munido da matriz, pode questionar como o conflito singular se liga a processos críticos particulares e universais. Isso limita a restrição da análise somente à dimensão afetiva e imaginária do grupo. Essa articulação metodológica resgata o sentido político da intervenção, deslocando-a de um exercício técnico de gestão participativa para uma práxis de transformação institucional orientada pela totalidade social. Em conclusão, a aproximação entre Lourau e Breilh evidencia que a práxis emancipatória em saúde requer a superação da fragmentação entre análise e intervenção. A Matriz de Processos Críticos fortalece a Análise Institucional ao oferecer uma ferramenta teórico-metodológica que ancora a intervenção na determinação social, evitando a captura ideológica e o fechamento imaginário do grupo. Essa síntese reafirma a potência do marxismo como epistemologia da práxis, ao reforçar que a transformação institucional só é possível quando se compreende a instituição como parte da totalidade histórica e social que a produz.

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Biografia do Autor

Jenifer Bianca de Melo SILVA, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.

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Laís de Miranda Crispim COSTA, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.

Doutora em Enfermagem pelo Programa de pós-graduação e pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas. Possui graduação em Enfermagem pela Universidade Federal de Alagoas (2004). É professora adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas. Especialista em História da Enfermagem com título conferido pela Associação Brasileira de Enfermagem (2022). Tem experiência na área de Enfermagem, com ênfase em Saúde Coletiva. Líder do Grupo de Pesquisa cadastrado no CNPq GEDIM - Grupo de Estudos D. Isabel Macintyre. Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem - Mestrado da UFAL.

Keila Cristina Pereira do Nascimento OLIVEIRA, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Escola de Enfermagem – EENF, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem – PPGENF. Maceió, AL, Brasil.

Pós doutora pelo Programa de Pós-graduação Enfermagem em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - EERP/USP (2024); Doutora em Serviço Social pelo Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (PPGSS/UERJ) em 2017; Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas (PPGENF/UFAL) em 2012; Possui graduação em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Federal de Mato Grosso (1998). Professora Adjunto da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas (EENF/UFAL), atuando principalmente nos seguintes temas: Enfermagem, Saúde Coletiva, Gestão em Saúde, Educação Permanente em saúde e Ações Intersetoriais. Coordenou a Pesquisa PPSUS (2021-2023) intitulada Ações intersetoriais voltadas a prevenção e controle dos fatores de risco das doenças cardiovasculares em Delmiro Gouveia-AL. Professora visitante da Cy Cergy Paris Université em 2024 [Programa CAPES-COFECUB - Edital N 32/2022- Processos: Números: 88887.711939/2022-00 e 88881.711940/2022-01] - Diálogos na Formação de Adultos em Saúde no Brasil e na França.

Cinira Magali FORTUNA, Universidade de São Paulo – USP, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – EERP, Departamento Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem. São Paulo, SP, Brasil.

Atualmente é professora titular no Departamento Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, sendo vice chefe do mesmo. É graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - EERP-USP (1985), concluiu o mestrado em Enfermagem em Saúde Pública também na EERP-USP (1999) e realizou doutorado em Enfermagem em Saúde Pública nessa mesma escola (2003). Realizou o pós-doutorado na França entre 2012 e 2013 com bolsa FAPESP junto ao laboratório de pesquisas EMA (Escola, Mutação e Aprendizagem) aprimorando seus conhecimentos sobre a análise institucional e ciências da educação.Trabalhou cerca de 23 anos na prestação de cuidados de enfermagem em saúde mental e saúde publica paticipando da implantação e desenvolvimento de programas de saúde, do programa de educação continuada e do Serviço de atenção domiciliar da SMS-RP. Também atuou como docente na graduação de enfermagem e medicina da Universidade de Ribeirão Preto- UNAERP. Membro do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NUPESCO) desde 1988 e atualmente é lider do mesmo. Participa dos Grupos cadastrados no CNPq Análise Institucional Saúde Coletiva (Unicamp) e NUGES (Nucleo de Gestão em Saúde da UFMG). É participante da Rede de enfermeiros doutores em Ciências da França (RESiDOC) desde 2012. Participa do RESEAU International RECHERCHE AVEC que inclui membros do Brasil, Mexico, França e Canadá coordenada por Gilles Monceau (Université CY-CERGY PARIS - France) e Marguerite Souliére (Université de Ottawa- Canadá) sendo membro do Comite científico. Possui expressiva atividade de internacionalização tendo concluido orientações de 3 doutorados em co-tutela, com tres outras em andamento. Enviou nos ultimos 5 anos, dez doutorandos para estagio no exterior com bolsa e coordena diversos convenios internacionais. É vice presidente da Comissão de relações internacionais da EERP-USP. Bolsista produtividade CNPq (PQ 2) de 2014 a 2021; Bolsista produtividade (PQ 1 D) à partir de 2022. Membro do Comite Cientifico do Institute de la personne en medicine da Université Paris VII (Sorbonne). Membro da Comissão de Integração Ensino Serviço da Macro Região de Saúde ( inclui 96 municipios pertencentes as DRS de Ribeirão Preto, Franca, Araraquara e Barretos). É membro associada da ABEn, da Abrasco e Associação Paulista de Saúde Publica. Voluntária do MORHAN nacional e municipal e membro diretoria cientifica da rede Universitária Reuna Hans São Paulo e membro da diretoria da rede nacional universitária REUNA HANS que se dedica ao ensino, pesquisa e combate da hanseniase no país. Tutora da liga de hanseniase da EERP-USP. Participa do projeto InformaSUS da Universidade Federal de São Carlos. Tem experiência na assistência, ensino e pesquisa em enfermagem, com ênfase em Enfermagem de Saúde Pública, atuando principalmente nas seguintes temáticas: grupos operativos, trabalho em equipe, enfermagem em saúde coletiva, análise institucional, processo de gestão, saúde da família, apoio institucional e educação permanente em saúde.

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Publicado

2026-01-12

Como Citar

1.
SILVA JB de M, COSTA L de MC, OLIVEIRA KCP do N, FORTUNA CM. A determinação social como ponte entre campo de análise e intervenção: contribuições da matriz de processos críticos à análise institucional. Crit. Revolucionária [Internet]. 12º de janeiro de 2026 [citado 16º de janeiro de 2026];5:e009. Disponível em: https://criticarevolucionaria.com.br/revolucionaria/article/view/154

Edição

Seção

Jornadas, Colóquios e Anais