A determinação social da epidemia de diagnósticos em saúde mental

Autores

  • Milena Siqueira NOLASCO Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Faculdade de Serviço Social, Departamento de Pós-graduação em Serviço Social. Maceió, AL, Brasil.
  • Diego de Oliveira SOUZA Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Faculdade de Serviço Social, Departamento de Pós-graduação em Serviço Social. Maceió, AL, Brasil.

DOI:

https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.151

Palavras-chave:

Processo Saúde-Doença, Saúde Mental, Diagnósticos, Capitalismo

Resumo

Na sociedade capitalista neoliberal, o Estado assume o papel de mediador nas relações sociais com o intuito de manutenção da norma. Elaboram-se nesse cenário contradições e formas de exploração de classe que pressionam os trabalhadores a ampliação da produtividade e colocam o trabalho como prioridade na vida. Cria-se a concepção para as classes subalternas de que os sujeitos devem aceitar o seu destino, seja ele carregado por pobreza, precarização ou injustiça, esta é uma forma de afastar a realidade de exploração entre as classes e criar a doutrinação e comportamento apaziguador do indivíduo explorado. Assim, faz-se importante a discussão sobre como a epidemia de diagnósticos em saúde mental, faz parte dessa lógica capitalista e neoliberal de exploração e domínio sobre os corpos e vida dos sujeitos da classe trabalhadora. Na aproximação da realidade, temos como central o plano da produção capitalista e neoliberal construída através do trabalho, onde temos a força de trabalho, implicada na garantia da produtividade em atenção às necessidades do sistema do capital. Com o sentido de ampliar e implementar a mais-valia e a acumulação do capital, temos uma indução de anomalias na fisiologia humana através das cargas de trabalho, que podem causar diversos danos e até modificações genéticas, ocasionando uma precarização da saúde em detrimento do lucro (mais-valia) produzida no processo de exploração e posse pelo capital do tempo excedente de trabalho exercido pelos trabalhadores. A saúde-doença investigada por meio do empírico do problema permite construir um estudo do caráter social da doença, alcançando a discussão de que os corpos dos sujeitos são socialmente necessários saudáveis e até mesmo não saudáveis para o sistema do capital garantir a reprodução da força de trabalho, que o faz por meio de ações mínimas de cuidado em saúde para com esses corpos. Assim, a busca pelo avanço desse caráter, permite perceber a saúde e a doença dentro de dimensões ontológicas da saúde, que englobam as características sociais juntamente as características biológicas que se desgastam na reprodução social. Nesse sentido, o controle sobre a saúde mental dos seres humanos pelo viés neoliberal, mantém a responsabilidade individual descontextualizada da forma crítica de discutir — como propõe o método dialético de Karl Marx, que provoca considerar a contextualização histórica dos territórios, cultura, economia e política. Com a ausência de uma análise contextualizada sobre a saúde dos sujeitos, o sistema influi que o problema do adoecimento mental, acontece devido a fragilidade pessoal, individualizando a questão. Ao longo do tempo, as formas de controle sobre os corpos dos sujeitos foram sendo modificadas e, passaram a alimentar a ideia de diagnosticar amplamente qualquer erro ou modo diferente de pensar da normalidade que segue a ordem do sistema, para alimentação da economia.  Tendo a percepção de que o lugar da loucura e da normalidade são extremos opostos e em nenhum momento ocorrem simultaneamente. Nas relações sociais atuais são criadas formas de desigualdades sociais, disfarçadas com uma falsa liberdade. Quando os sujeitos acessam com mais facilidade os diagnósticos e tratamentos, são inseridos na execução implícita de controle do neoliberalismo por meio da indústria farmacêutica com a venda intensificada de medicamentos, alimentada pela naturalização do sofrimento e redução do acesso à realidade. Os diagnósticos de sofrimento psíquico estão cada vez mais atrelados às identidades dos sujeitos e trazem com isso um novo perfil de consumo para o mercado e uma nova lógica na busca por direitos sociais. A doença mental aqui é vista como biológica justamente para a culpabilização individual, pois o adoecimento nesse sentido, é algo que está anormal dentro do sujeito e não algo que precisa ser avaliado para pensar de forma crítica em transformações sociais, culturais, econômicas e políticas da estrutura.  O neoliberalismo precisa manter o controle da sociedade, seja por meio da privação de liberdade ou por meio da falsa liberdade, que incentiva a alimentação do capital financeiro por meio da compra e venda de produtos que prometem amenizar ou curar o sofrimento mental. Vale ressaltar que o excesso de diagnósticos não representa apenas uma ferramenta de controle do neoliberalismo, mas também a demonstração de como o sistema capitalista com a exploração de classes, pode intensificar o adoecimento dos indivíduos. A sociedade neoliberal induz a desconsiderar os problemas sociais que provocam o adoecimento mental, como as discussões de poder, raça, gênero, trabalho, classe, que influenciam diretamente o processo de saúde-doença, acarretando o desvio da crítica a realidade concreta e as vivências traumáticas que as instituições e estrutura causam. Os ditames do neoliberalismo, então, induzem o adoecimento mental, elaboram explicações para os fenômenos do sofrimento psíquico, que se voltam para o individualismo, e simultaneamente, estabelecem medicamentos para tratá-los. A saúde mental hoje encontrada na sociedade capitalista, é delineada por movimentos contraditórios de ditar que o ser que se encontra doente, não é só mais um ser descartável no modo de produção capitalista, mas também um potencial consumidor de mercadorias (medicamentos, estilos de vida “saudáveis” etc.) que garantem sua cura. Intensifica-se então, a lógica de um sujeito produtivo, responsável por sua vida (inclusive saúde-doença), e que, mesmo adoecido, pode ser funcional para o sistema. Nesse sentido, o sofrimento psíquico se torna mais um instrumento para o desenvolvimento do mercado, que não se enquadra para reflexões e mudanças de ordem pelo Estado, em uma narrativa de individualização dos problemas.

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Biografia do Autor

Milena Siqueira NOLASCO, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Faculdade de Serviço Social, Departamento de Pós-graduação em Serviço Social. Maceió, AL, Brasil.

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Diego de Oliveira SOUZA, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Faculdade de Serviço Social, Departamento de Pós-graduação em Serviço Social. Maceió, AL, Brasil.

Graduado em Enfermagem e licenciado em Sociologia, especialista em Enfermagem do Trabalho, mestre, doutor e pós-doutor em Serviço Social, pós-doutor em Estudios de la ciudad. Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da UFAL, do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Formação de Professores da UFAL - campus Arapiraca e do curso de Graduação em Enfermagem da UFAL - campus Arapiraca. Realizou estágio de pós-doutorado em Estudios de la Ciudad, na Universidad Autónoma de la Ciudad de México. Foi professor Visitante na Universidad de la Salud de la Ciudad de México. Atua nas seguintes áreas: Saúde do Trabalhador; Saúde Coletiva; Serviço Social; Enfermagem; e Ensino. Pesquisa sobre: trabalho; trabalho e saúde; questão da saúde dos trabalhadores; campo da Saúde do Trabalhador; cargas de trabalho; processo de desgaste; educação e ensino em Saúde do Trabalhador; determinação social da saúde; processo saúde-doença; ontologia e saúde; saúde e questão social; saúde e economia; financiamento da saúde pública. É líder 2 do GETSSE (Grupo de Estudo Trabalho, Ser Social e Enfermagem) - CNPq - UFAL/Campus Arapiraca, atuando na seguinte linha de pesquisa: Trabalho, Saúde, Enfermagem e Sociedade. Membro do GT Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora da Abrasco. Membro do núcleo Saúde, Trabalho e Direito do Cebes e do núcleo Agraste/Alagoas do Cebes. Membro da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). Membro da Associação Brasileira de Enfermagem. Membro do Instituo Trabalho Associado.

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Publicado

2026-03-10

Como Citar

1.
NOLASCO MS, SOUZA D de O. A determinação social da epidemia de diagnósticos em saúde mental. Crit. Revolucionária [Internet]. 10º de março de 2026 [citado 9º de abril de 2026];5:e032. Disponível em: https://criticarevolucionaria.com.br/revolucionaria/article/view/151

Edição

Seção

Jornadas, Colóquios e Anais