A categoria da alienação na análise do sofrimento psíquico em mulheres
articulações entre a determinação social da saúde-doença e a psicologia histórico-cultural
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.149Palavras-chave:
Alienação Social, Saúde Mental, Determinação Social da Saúde, Mulheres, Angústia MentalResumo
Articulam-se duas teorias fundamentadas no marxismo - determinação social latino-americana e psicologia histórico-cultural - para avançar na explicação do sofrimento psíquico desde a dialética objetividade-subjetividade e unidade indivíduo-sociedade. O tratamento descritivo dados aos transtornos nos manuais psiquiátricos coaduna com a psicofarmacologização e saudementalização da vida. Avançar no debate e nas práticas antimanicomiais implica desvelar determinações sociais engendradas pelo ”nó” classe, raça/etnicidade e gênero. Saúde é o máximo desenvolvimento das potencialidades humanas, do gênero humano rumo ao ser social, condicionado pelo grau de avanço histórico-social, mas também pelos processos desumanizadores; o sofrimento psíquico é produto das mediações complexas singular-particular-universal, que extrapolam a individualidade somática. Utilizamos as formulações de alienação de Martins, pari passu ao debate acerca da frustração de necessidades. É necessária a articulação da teorização marxista na saúde coletiva (lastreada na luta contra os efeitos das condições de classe sobre a saúde) a uma compreensão do psiquismo humano desde a psicologia histórico-cultural, para se alcançar o nível de singularização do desenvolvimento ontogenético sem perder suas conexões com o universal, na abordagem de objetos tão “pessoais”. O objetivo é examinar a operacionalidade das formulações gerais sobre necessidades em saúde e alienações da personalidade, para analisar aquelas impostas de modo próprio às mulheres na formação social capitalista brasileira, para o avanço da teorização, e de prática insurgentes, acerca da determinação social do sofrimento psíquico na sua forma contemporânea gendrada, denominada depressão. Este estudo teórico decorre de uma pesquisa de campo que entrevistou mulheres diagnosticadas com depressão (resultados empíricos não são descritos, mas deram origem e propósito ao ensaio). Desenvolve-se uma análise dos conceitos: alienação (conforme Marx, e contemporâneos da psicologia histórico-cultural) e necessidades, com ênfase nas implicações daquelas diuturnamente frustradas, em particular das mulheres. Na formação social nacional, na escalada do conflito capital-trabalho com o patriarcado e racismo a seu serviço, proliferam desigualdades e obstruções - as violências como ápices - ao pleno desenvolvimento dos potenciais processos psicológicos mais complexos, como a constituição da personalidade, que depende das bases materiais e simbólicas. A dialeticidade da vida se processa nos corpos e na personalidade, conforme inserções da pessoa nas relações. A sobredeterminação dos processos histórico-sociais mais complexos e multidimensionais - incorporam, por subsunção, outros processos como os biopsíquicos, como concebemos os sintomas depressivos de desvalor de si, resignação, esvaecimento da vontade e do sentido da vida. Afirmar a determinação social da deterioração da saúde mental, como violação do potencial de se tornar único/singular/consciente realizando o gênero universal, não é negar suas bases biológicas. A depressão não é um adoecimento de origem neuroquímica, manifesta na unidade biopsíquica as contradições da sociedade. Ela reflete a desorganização da estrutura de motivos da personalidade, invadida por pressões externas e exigências, revelando rupturas entre sentido da atividade e possibilidades concretas de objetivação das necessidades. O conceito marxiano de alienação sintetiza o distanciamento - ou a ruptura - do papel ontológico do trabalho, no sociometabolismo capitalista. As expressões da alienação em nível psicológico, se apresenta como: “sentimento de falta de poder” - impotência e incapacidade de conduzir a vida; “sentimento de absurdo” - baixa expectativa na relação entre ações e resultados; “isolamento”, desesperança e distanciamento dos valores sociais; “auto-estranhamento” - dependência de recompensas externas à própria atividade; “ausência de normas” - quebra de vínculos indivíduo-meio. As formas de alienação são sinalizadoras do empobrecimento de valores e vínculos, fetichização das pessoas e relações. Esses processos convergem na formação da personalidade alienada, com perda da coerência entre pensamento, emoção e ação. Breilh vai além das necessidades básicas, incorporando as necessidades vinculadas ao psiquismo e à consciência: identidade, fruição afetiva, participação social, liberdade de pensamento e recreação formativa. Perguntamos: essas necessidades são satisfeitas ou frustradas para a massa das mulheres brasileiras? As necessidades vinculadas ao psiquismo dão conteúdo e direção à vida humana, são “as mais violadas pelas sociedades das desigualdades” dilapidando a qualidade de vida substantiva. As alienações e suas singularizações psicológicas nas mulheres subalternizadas, as vulnerabilizam ao adoecimento depressivo manifesto como: baixa autoestima, desesperança, fatalismo e inação. Assim, reafirma-se o entrelaçamento das necessidades não satisfeitas com alienações da personalidade, e seus efeitos manifestos como sintomas depressivos. A ausência de mediações de cunho emancipatório (exemplo: mediações feministas classistas nas ações assistenciais, de cuidados e nas políticas sociais) agrava riscos danos causados pelo domínio do capital, ao invés de se contrapor a esses, seguindo incólume a internalização dos simbolismos e violências estruturais. Abstraídas da ontologia marxista, a epidemiologia convencional, a psiquiatria e mesmo a Atenção Psicossocial que defendemos, perdem em capacidade de explicar a radicalidade do sofrimento coletivo produzido, individualmente subjetivado. Aprofundamos nesse ensaio sobre como a alienação, particularmente em suas expressões no nível psicológico, pode ser empregada como categoria de análise da forma depressão, pela qual o sofrimento da maioria das mulheres se manifesta, sob o peso das opressões/subordinações estruturais de gênero. Indissociáveis das de classe e raça, elas incidem sobre a personalidade e sobre a saúde-doença-cuidado. A alienação explicita a (ir)realização das necessidades nas condições colocadas. Os referenciais aportados são, assim, mais capazes de superar interpretações individualizantes, resgatando o caráter coletivo e histórico do sofrimento que massivamente se expressa na atualidade. Combatendo à responsabilização dos indivíduos por sua saúde mental, reafirmamos a necessidade de desenvolver tecnologias e políticas sociais comprometidas com a transformação societária, que atuem para além do fenomênico. Urge mais radicalidade na saúde coletiva e saúde mental. Somente práticas de cuidado que reconheçam o sofrimento como expressão singular e existencial da alienação social - e não como fracasso individual - pode reverter os interditos gendrados e racializados às necessidades. Interditos que marcam a consciência sobre si com significados como inferioridade, dependência, passividade, desvalor, subalternidade e abdicação. Confluem no empobrecimento da vida, resignação diante de frustrações de necessidades; orientação da conduta na direção de necessidades ideologizadas. A luta social por uma vida digna a todos e todas, sem assimetrias e inequidades, é a real luta por saúde mental das mulheres.
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