A epidemiologia crítica de Jaime Breilh

uma resposta dialética ao reducionismo cartesiano e a sua vinculação à crítica da economia política

Autores

  • Stefano MALIGIERI Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.
  • Ana Carolina NONATO Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.
  • Gustavo de Almeida SANTOS Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.

DOI:

https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.169

Palavras-chave:

Determinantes Sociais da Saúde, Saúde Pública, Política, Epidemiologia, Capitalismo

Resumo

A obra “Epidemiologia Crítica e a Saúde dos Povos”, de Jaime Breilh, figura central da saúde coletiva latino-americana, surge em um contexto de "crise múltipla pandêmico-sindêmica" do sistema hegemônico capitalista global. Organizado em três capítulos, o livro desponta como uma ferramenta para forjar uma "ciência ética e corajosa em uma civilização doentia". No centro deste esforço se encontra a disputa pela categoria "determinação social", derivada da análise do processo de reprodução, mas frequentemente cooptada e reduzida a um sinônimo funcionalista dos "determinantes sociais da saúde" (DSS). A presente resenha analisa a obra completa, argumentando que a contribuição de Breilh vai além da crítica ao reducionismo cartesiano. O autor apresenta uma metodologia robusta, que articula a dialética marxista à epistemologia de Juan Samaja, operando uma reconexão fundamental da saúde pública à crítica da economia política através das categorias de "reprodução social" e "subsunção". A construção argumentativa do livro se revela em movimentos que estabelecem o "porquê" e o "como" da ruptura paradigmática. Após recuperar historicamente o surgimento e o desenvolvimento da epidemiologia crítica latino-americana no campo da Saúde Coletiva no capítulo um, o segundo capítulo se inicia com a desconstrução da "bolha cartesiana", o pensamento empirista linear que domina a ciência da saúde. Breilh critica a pesquisa cartesiana por seu caráter "superficial" e seu foco em "fatores isolados", os quais resultam em um "pragmatismo funcionalista" a serviço da manutenção do poder, e estende essa crítica à epidemiologia dos "determinantes sociais da saúde", notadamente a abordagem de Marmot. Ele classifica este modelo como "reformismo institucional" e um "esquema neocartesiano de causalidade" que, embora postule as "causas das causas", permanece na lógica linear de fatores e, portanto, não supera a análise da "ponta do iceberg". Ao reduzir a complexidade da realidade a um "arranjo incompleto de evidências e relações factuais", o modelo dos DSS torna-se um "fetichismo" que "dissolve" a inter-relação dialética entre os diferentes níveis da realidade social. É aqui que a influência de Samaja se torna decisiva: para operacionalizar essa leitura complexa, Breilh apropria-se da teoria das interfaces hierárquicas de Samaja, estruturando a determinação não como uma cadeia causal, mas como um movimento entre estratos ontológicos distintos. Em oposição direta ao modelo funcionalista, o capítulo três, "Novo Método e Despertar Intercultural", apresenta o "como", ancorando a proposta alternativa na crítica da economia política. Breilh posiciona a categoria marxista central de "reprodução social" como o fundamento de sua metodologia, definindo-a como o "movimento de produção e distribuição da vida", indissociável da "lógica da acumulação do capital" e das "relações sociais de poder". Nesse referencial, a saúde (ou doença) converte-se em uma "corporificação" (embodiment) das contradições geradas nesse processo. A conexão com Marx é aprofundada pela referência a Bolívar Echeverría e à contradição entre valor de uso e valor de troca como o cerne da substância social a ser transformada. Para explicar como essa determinação opera, Breilh resgata outra categoria marxista fundamental, a subsunção. Ao invés da "conjunção linear" positivista, ele propõe a "subsunção do biológico-natural no social" como o mecanismo dialético que explica como o social inclui e transforma o biológico. O autor demonstra sofisticação teórica ao historicizar o conceito, partindo da subsunção formal e real do trabalho em Marx até as formas contemporâneas sociobiológica, do consumo e, finalmente, a "quinta subsunção" (cibernética). Com base nesses fundamentos, Breilh estrutura sua "metodologia metacrítica". Seguindo a lição de Samaja de que a ciência deve questionar as condições de produção do próprio dado (a sua gênese), a análise é organizada na tríade dialética: (i) Geral (lógica de acumulação/cultura), (ii) Particular (modos de viver dos grupos) e (iii) Individual (estilos de vida e genótipo). O movimento entre esses níveis (G, P e I) rompe com o isolamento das variáveis. Para aplicar essa análise, propõe a "Matriz de Processos Críticos", que avalia os "4 S" (Sustentabilidade, Soberania, Solidariedade, Segurança) — pilares para a concretização do Bem Viver. A matriz integra evidências qualitativas (Metanarrativa) e quantitativas (Metainferência), onde a estatística é ressignificada: deixa de ser a medida de fatores isolados para se tornar a mensuração de dimensões de processos concatenados. A Metanarrativa, por sua vez, supera o relativismo cultural indutivo ao contextualizar as vozes na estrutura de poder. Dessa forma, a metodologia é concebida como uma práxis, articulada ao "triângulo de ação" de Matus e à necessidade de uma ciência intercultural, servindo como ferramenta para o "despertar do povo" e a luta da classe trabalhadora. Conclui-se, portanto, que a obra de Breilh representa uma contribuição fundamental para o pensamento crítico em saúde. Ela não apenas denuncia o apagamento da determinação social e sua redução aos "determinantes" positivistas, mas oferece uma robusta e detalhada alternativa metodológica. Ao fundamentar sua epidemiologia crítica nas categorias marxistas de reprodução social e subsunção, Breilh fornece uma ferramenta poderosa para a práxis em saúde coletiva, permitindo uma análise materialista, histórica e dialética que reconecta o adoecimento humano às contradições da acumulação de capital. Finalmente, consideramos que o autor estabelece um potente marco paradigmático, indicando a direção a ser tomada pela epidemiologia e pelas ciências da saúde em geral em sua atuação para a transformação radical da sociedade.

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Biografia do Autor

Stefano MALIGIERI, Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.

Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva

Ana Carolina NONATO, Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.

Doutoranda do Programa de Saúde Coletiva

Gustavo de Almeida SANTOS, Universidade de São Paulo – USP, Faculdade de Medicina – FM, Departamento de Medicina Preventiva. São Paulo, SP, Brasil.

Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva

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Publicado

2026-01-27

Como Citar

1.
MALIGIERI S, NONATO AC, SANTOS G de A. A epidemiologia crítica de Jaime Breilh: uma resposta dialética ao reducionismo cartesiano e a sua vinculação à crítica da economia política. Crit. Revolucionária [Internet]. 27º de janeiro de 2026 [citado 3º de março de 2026];5:e017. Disponível em: https://criticarevolucionaria.com.br/revolucionaria/article/view/169

Edição

Seção

Jornadas, Colóquios e Anais