Determinação social da saúde e a pesca artesanal
a comunidade da Ilha de Deus frente à crise climática
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.152Palavras-chave:
Determinação Social da Saúde, Mudanças Climáticas, Pesca Artesanal, Saúde do TrabalhadorResumo
O estudo teve como objetivo compreender como as condições de trabalho, as dinâmicas territoriais e as desigualdades estruturais, especialmente marcadas pela questão racial e atravessadas por relações de gênero e pela questão climática, moldam o processo saúde-doença das mulheres trabalhadoras da pesca artesanal da Ilha de Deus, Recife/PE. A investigação parte da análise do processo de trabalho na pesca artesanal como expressão das contradições estruturais que marcam a formação social brasileira. Essa atividade, historicamente invisibilizada e essencial para a reprodução da vida em territórios tradicionais, evidencia como a saúde dessas populações está vinculada às relações desiguais de produção capitalista, que subordinam o trabalho e a natureza à lógica do capital. A precarização, a expropriação dos meios de subsistência e a degradação ambiental configuram dimensões de um mesmo processo de exploração que atravessa as classes trabalhadoras no país. É nesse contexto que se insere a comunidade pesqueira da Ilha de Deus, no Recife, cuja realidade sintetiza as contradições históricas e as formas de resistência presentes no mundo do trabalho da pesca artesanal. O território, reconhecido como Zona Especial de Interesse Social – ZEIS, é ao mesmo tempo fonte de sustento e espaço de luta para mulheres da pesca artesanal, predominantemente negras, que enfrentam jornadas exaustivas, precarização do trabalho, exclusão de políticas públicas e desvalorização de seus saberes. A crise climática se manifesta no cotidiano da comunidade pelo calor extremo e pela poluição das águas, afetando a produção de alimentos, a renda e a saúde. Ao mesmo tempo, essas populações desempenham papel central na proteção dos ecossistemas, preservando rios, mangues e espécies locais, o que evidencia que os impactos da crise climática estão ligados à degradação ambiental, e que a sustentabilidade do território depende das práticas de cuidado e resistência construídas pela comunidade. A investigação, de abordagem qualitativa e fundamentada na pesquisa participante, foi desenvolvida com mulheres da comunidade a partir de oficinas construídas em rodas de conversa e círculos de cultura voltados à promoção da saúde. Inspiradas na pedagogia de Paulo Freire, essas atividades buscaram criar espaços de diálogo, escuta e reflexão sobre as condições de trabalho. Ao longo dos anos de 2024 e 2025, foram realizadas diversas rodas e oficinas com as mulheres da Ilha. Para este estudo, foram analisados cinco encontros, com duração média de duas horas, nos quais se discutiram temas centrais como trabalho, alimentação, raça, gênero, comunicação não-violenta e clima. As discussões foram registradas em diário de campo e posteriormente sistematizadas, constituindo o corpus da análise. A pesquisa está vinculada ao projeto guarda-chuva aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto Aggeu Magalhães – IAM, sob o número CAAE 25398119.9.0000.5190, respeitando todos os princípios éticos de confidencialidade e consentimento. A análise das rodas revela como o processo de adoecimento está profundamente ligado ao processo de trabalho e à forma como a vida é sustentada. As mulheres relataram cansaço físico e emocional diante da sobrecarga das tarefas domésticas e produtivas, da instabilidade da renda e incerteza frente às mudanças climáticas. A poluição vinda dos grandes empreendimentos erguidos nas proximidades da comunidade ampliaram problemas como o calor extremo, as doenças transmitidas pela água e diminuição do pescado. Esses são sinais de um sistema que, ao concentrar riqueza, dissemina desigualdade, exaure a natureza e adoece quem dela depende para viver. A determinação social da saúde se revela nas tramas do viver, onde trabalho e resistência se cruzam. As mulheres mostram que a saúde é mais que não adoecer: é insistir na vida, recriá-la todos os dias, mesmo em meio às condições que tentam destruí-las. Compreender a saúde das trabalhadoras da pesca artesanal é reconhecer o corpo e o território como campos de disputa. Os relatos das mulheres da Ilha de Deus revelam que o cuidado, trabalho e solidariedade são também práticas de transformação social e de resistência. Na comunidade, existem duas hortas comunitárias mantidas por essas populações, que também pescam, plantam, protegem os manguezais, cuidam das águas e preservam práticas sustentáveis fundamentadas em saberes ancestrais e resistências históricas. Entre suas conquistas, destaca-se a construção da Ponte “Vitória das Mulheres”, resultado da mobilização e da luta das mulheres da Ilha, que garantiu melhor acesso e reconhecimento do território. Ao narrar suas experiências, elas produzem conhecimento e apontam caminhos para reconstruir a saúde como um campo de luta pela reprodução da vida e pela superação das condições que a ameaçam. O estudo também evidencia a importância de um olhar mais aprofundado sobre as expressões da questão racial e da crise climática no processo de determinação social da saúde das mulheres trabalhadoras da pesca artesanal. Os relatos dos encontros revelam que o território da pesca artesanal, historicamente conhecido como “Ilha sem Deus”, é marcado por violências estruturais relacionadas à exploração do trabalho e dos recursos naturais. Essas condições, produzidas pelo modo de produção capitalista, impactam diretamente a saúde e a reprodução social da comunidade. Ao dar centralidade às experiências das mulheres da Ilha de Deus, a pesquisa indica que, embora políticas públicas sejam importantes, é necessário ir além, articulando saberes locais e transformação das condições de trabalho para enfrentar os impactos da lógica capitalista sobre a saúde dessa população. Para pesquisadores e pesquisadoras interessados no tema, destaca-se a importância de metodologias participativas, de diálogo e coletividade com as comunidades e de análises que integrem economia política, território e cuidado como dimensões fundamentais da determinação social da saúde.
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