Determinação social da saúde e psicologia
experiência da disciplina de psicossomática
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.147Palabras clave:
Psicosomática, Determinantes Sociales de la Salud, Formación en Psicología, Problema SocialResumen
O campo da Psicossomática é predominantemente centrado no binômio sujeito-sintoma, muitas vezes, não ressaltando a complexidade da determinação dos processos saúde-doença-cuidado, o que evidencia a necessidade de superar leituras individualizantes e aproximar a disciplina das dimensões históricas, sociais e econômicas do adoecimento. Considerando que essa disciplina integra a formação em Psicologia e que o debate sobre a determinação social da saúde possui uma dimensão ético-política, é fundamental fortalecer essa abordagem na formação crítica em saúde, especialmente em componentes curriculares introdutórios e formadores de base teórica para o cuidado nesse campo. Nosso objetivo é analisar, a partir do trabalho com o conteúdo sobre determinação social da saúde em uma unidade temática da disciplina de Psicossomática, o processo de construção de um entendimento crítico sobre os processos saúde-doença-cuidado, explorando como essa compreensão se diferencia do modelo biomédico tradicionalmente hegemônico. Para tanto, analisamos os conteúdos trabalhados, a atividade avaliativa, os materiais utilizados e as atividades desenvolvidas, a partir do relato de experiência de duas discentes. A disciplina em questão é obrigatória no curso de Psicologia, encontra-se no terceiro período e possui carga horária de 60 horas, divididas em três blocos temáticos: Psicologia e o processo saúde–doença–cuidado; Conceito de Psicossomática e saúde mental; e Temas em Psicossomática na prática profissional. Trata-se de uma disciplina introdutória, responsável por fornecer conceitos básicos fundamentais para que os discentes iniciem sua compreensão sobre cuidado na prática profissional, articulando pressupostos teóricos e reflexões críticas. Na primeira unidade da disciplina, discutimos o conceito de saúde e o que seriam determinantes sociais da saúde (DSS), problematizando a visão de saúde centrada na ausência de doença e os limites dos DSS como modelo explicativo. Realizamos uma crítica ao modelo de DSS e avançamos para o debate sobre a determinação social da saúde, compreendendo que esta supera o caráter fenomênico e descritivo dos determinantes ao enfatizar os processos estruturais que produzem desigualdade, sofrimento e adoecimento. Como recurso pedagógico, utilizamos os documentários “Ilha das Flores” e “Herança Social”, fundamentais para evidenciar as contradições do capitalismo e demonstrar como as estruturas de relações de reprodução da vida social determinam, e não apenas influenciam, a saúde, a doença e a forma/ausência de cuidado. A discussão permitiu desconstruir a compreensão do processo saúde-doença-cuidado pela lógica biomédica, que reduz o sofrimento psíquico e físico ao organismo individual, e possibilitou estabelecer relações entre as mazelas provocadas pelo capitalismo, as múltiplas expressões da questão social, os processos de adoecimento e os processos de saúde, fortalecendo uma leitura materialista e ampliada desses fenômenos. Como atividade avaliativa, foi utilizado o diário de bordo, que permitiu aos estudantes articular os conteúdos trabalhados com suas próprias vivências, refletir sobre como a determinação social da saúde atravessa suas realidades e estabelecer relações com discussões realizadas na unidade da disciplina e também como tal discussão se articulava com discussões abordadas em outras disciplinas, como por exemplo, Psicopatologia. Essa estratégia pedagógica também favoreceu a construção de autonomia intelectual e a capacidade de análise crítica das condições objetivas que condicionam o cuidado em saúde. As discussões nesta unidade foram base para que trabalhássemos sequencialmente os conteúdos já estabelecidos na ementa do curso, conteúdos de caráter hegemônico da psicossomática, pelo prisma da determinação social da saúde. Na segunda unidade, foi solicitado aos discentes a construção de estudo de caso, no qual, a cada conteúdo apresentado, era necessário trazer elementos narrativos das histórias e como compreender criticamente sobre as temáticas de psicossomáticas tradicionais. Assim, buscou-se ampliar a percepção crítica sobre a Psicossomática e seu papel na formação em Psicologia. E, por último, foram realizadas apresentações sobre temáticas que são tradicionalmente trazidas pela psicossomática, contudo, pelo viés da determinação social da saúde. Por fim, defendemos que compreender o sujeito em sua totalidade, incluindo sua inserção na estrutura social, suas condições de vida, trabalho e acesso aos direitos, é indispensável para pensar práticas de cuidado e promoção de saúde. Isso inclui reconhecer que o processo saúde-doença-cuidado é expressão da questão social, pelas desigualdades e pela lógica capitalista que produz sofrimento e limita o acesso a cuidados adequados. As reflexões desenvolvidas possibilitaram um pensamento crítico sobre as formas de promover cuidado dentro do contexto capitalista, problematizando práticas que reforçam a culpabilização individual e apontando para a necessidade de construir uma lógica de cuidado comprometida com a transformação social, defesa de direitos e garantia de dignidade humana. Concluímos que a inserção da determinação social da saúde na Psicossomática, especialmente em uma disciplina obrigatória, introdutória e estruturante da formação, fortalece a formação crítica de psicólogas, psicólogos e psicólogues e amplia o entendimento sobre os processos que produzem sofrimento e saúde, fazendo com que o ser humano seja compreendido em sua totalidade complexa, além de ampliar o olhar dos futuros profissionais para que sejam capazes de pensar o cuidado dentro da realidade dos sujeitos, de uma forma comprometida ética e politicamente e que faça sentido.
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