Marxismo e redução de danos
campo de disputa na formação em psicologia
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.141Palabras clave:
Reducción de Daños, Formación en Psicología, Marxismo, DrogasResumen
O trabalho apresenta um relato de experiência sobre a elaboração, execução e participação em uma disciplina optativa intitulada “Tópicos Especiais em Psicologia da Saúde IV”, ofertada em um curso de Psicologia do interior do Rio Grande do Norte. A proposta surgiu da necessidade de inserir no currículo debates críticos sobre Psicologia e redução de danos (RD), fundamentados na perspectiva marxista, que orientou tanto o desenho pedagógico, trazendo debates acerca das contradições sociais, políticas e econômicas presentes na temática das drogas, quanto nas articulações possíveis com a prática profissional da psicologia. A abordagem de RD aparecia, muitas vezes, pulverizada em discussões de outras disciplinas, restringindo-se a práticas descontextualizadas e desconsiderando sua dimensão crítica e política, o que reforçava a necessidade de um espaço formativo específico. Como objetivo, buscamos analisar a experiência da disciplina, considerando sua contribuição para a formação crítica em Psicologia e para o tensionamento das perspectivas hegemônicas sobre drogas e cuidado. Foram examinadas a ementa, as avaliações, os materiais produzidos nas aulas e o relato de uma discente. A ementa foi estruturada para contemplar, em 30 horas, três eixos temáticos: Drogas na sociedade capitalista: consumo e mercadoria; Psicologia, Proibicionismo e RD; e Psicologia e RD: interseção necessária. Inicialmente, foi debatida a relação histórica entre a humanidade e substâncias psicoativas, quais locais essas substâncias ocupam e o sentido delas na vida das pessoas. Assim, foi possível ampliar o sentido sobre o que impulsiona o uso, rompendo com leituras moralizantes e reconhecendo múltiplas dimensões: recreativa, espiritual, política e de enfrentamento da realidade. Assim, evidenciou-se as relações entre capitalismo, mercantilização das substâncias e criminalização de determinados grupos, evidenciando tais processos como estruturantes da sociabilidade capitalista, e não como fenômenos ocasionais ou isolados. Também foi discutido como o sistema capitalista influencia a relação das pessoas com as substâncias, uma vez que, sendo também mercadorias, tal relação engloba a lógica produção–comércio–consumo, contextualizando o consumo como fenômeno socialmente determinado. Nesse curso de discussão, debateu-se como e por que apenas determinados grupos são criminalizados por sua relação com determinadas substâncias, evidenciando a seletividade moral e penal como meio de controle social que articula racismo estrutural e neoliberalismo punitivista. Tendo em vista o percurso histórico das substâncias, a relação com o capitalismo e a ideologia proibicionista que permeia essas relações, discutiu-se a influência dessa visão na lógica de cuidado de pessoas que consomem drogas, marcando seus limites para práticas de saúde orientadas pela garantia de direitos, autonomia e formação política. Partindo disso, travou-se o debate sobre como a RD chega aos serviços de saúde e como a lógica manicomial ainda se faz presente nessa realidade, tendo em vista a presença abrangente das Comunidades Terapêuticas – CT e seu financiamento público, enquanto a Rede de Atenção Psicossocial é sucateada. Discutiu-se o papel político das CT como dispositivos contemporâneos de segregação e manicomialização, reforçando práticas violentas, moralizantes e disciplinadoras. Para melhor entender uma lógica de cuidado pautada pela RD, foram trazidas as possibilidades de diálogo da Psicologia com a RD e como isso pode ser colocado nas práticas profissionais; para isso, foram utilizados estudos de caso para que os estudantes pudessem pensar formas de cuidar em diferentes contextos, aproximando teoria crítica e prática profissional. Em outro momento, houve diálogos com profissionais que trabalham com a RD em diversos âmbitos, como do direito, em contexto de festas e em Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, o que enriqueceu a compreensão dos estudantes sobre a diversidade de práticas possíveis. Além disso, um militante do movimento antimanicomial, que foi internado inúmeras vezes em CTs, foi convidado para falar sobre sua trajetória, sendo tal presença de suma importância para compreender que o cuidado deve ser em liberdade, centrando a visão no sujeito, não na substância, e reforçando a potência da organização política como lugar de cuidado. Levando em consideração a ementa, as discussões travadas e as atividades, juntamente com o relato de uma discente, foi possível evidenciar que essas discussões são de extrema importância não só para o curso de Psicologia, mas para toda a área da saúde. Foi possível ampliar o entendimento sobre o que seriam drogas, com uma leitura crítica orientada pelo materialismo histórico-dialético, problematizando os interesses econômicos e políticos que estruturam o proibicionismo. Além disso, o viés crítico da disciplina foi responsável por fazer com que os estudantes compreendessem a complexidade da questão das drogas como expressão da questão social, ampliando seu olhar para pensar formas de cuidado que levem em consideração as vontades do sujeito e a importância do coletivo e dos movimentos sociais como promotores de saúde. Logo, a disciplina tensionou perspectivas hegemônicas no cuidado a pessoas que consomem drogas e ampliou a compreensão crítica sobre a relação entre sociedade capitalista e o consumo de substâncias psicoativas, afirmando a RD como projeto ético-político articulado a um projeto emancipatório, sintetizando sua contribuição para uma formação comprometida com a crítica social e a defesa de direitos.
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