Relato de experiências de um grupo de estudos
epidemiologia crítica e a saúde dos povos de Jaime Breilh
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.178Palavras-chave:
Determinantes Sociais em Saúde, Saúde Pública, Política, Epidemiologia, CapitalismoResumo
Entre os dias 22 de setembro e 20 de outubro de 2025, realizamos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, um grupo de estudos voltado a leitura e a discussão da obra “Epidemiologia Crítica e a Saúde dos Povos: Ciência Ética e Corajosa em uma Civilização Doentia”, de Jaime Breilh. O objetivo deste trabalho é apresentar um relato das experiências, aprendizados, vivencias e trocas ocorridas no período em que as atividades se desenvolveram. A ideia para a criação do grupo surgiu da organização do “13º Simpósio Discente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva” de nossa universidade, o qual contou com Jaime Breilh como seu principal conferencista e cuja obra deu o título e a inspiração para o tema deste ano. Nesse contexto, o grupo se origina. Coordenado por uma docente do programa, mas direcionado e conduzido pelos alunos, durante um mês nos debruçamos sobre os conceitos e as críticas trazidas pelo autor à costumeira produção epidemiológica, caracterizada em sua obra como engessada, superficial, cartesiana e positivista. Ao longo de cinco semanas, o grupo se reuniu para discutir as leituras realizadas, que compreenderam a totalidade da obra. Neste esforço, tornamo-nos cada vez mais familiarizados com o referencial teórico trazido por Jaime Breilh, aprofundando nosso entendimento acerca da Epidemiologia Crítica. Percebemos, com clareza crescente, a relação estabelecida entre o movimento de reprodução social, em suas dimensões geral, particular e individual, e a geração de processos de saúde e de adoecimento. Ao longo da leitura do primeiro capítulo, verificamos o apagamento histórico da rica tradição crítica latino-americana no âmbito da epidemiologia. O segundo capítulo, por sua vez, foi responsável por furar a “bolha cartesiana” na qual estávamos inseridos: conhecemos a crítica do autor ao pensamento empiricista característico do campo da saúde. Para Breilh, esse pensamento reduz a realidade a fatores isolados e relações pragmáticas, cujo resultado é uma análise superficial que não vai além da “ponta do iceberg”. A epidemiologia dos “determinantes sociais da saúde”, tomada de forma recorrente e equivocada como sinônimo de determinação social, não supera a lógica linear cartesiana, limitando-se a investigar as “causas das causas”, na mesma estrutura lógica. Por fim, a leitura do capítulo três revelou a resposta para a pergunta “O Que Fazer?”, indicando um caminho metodológico alternativo, que parte da crítica da economia política e se baseia no conhecimento do processo de reprodução social e seus movimentos de subsunção/autonomia relativa para produzir um conhecimento epidemiológico que leva em conta a totalidade. Nesse âmbito teórico, os processos de saúde e doença resultam em corporificações (embodiments) geradas pelas contradições do processo. Concretamente, o caminho metodológico proposto resulta na produção de uma matriz de processos críticos, que organiza a análise, dialeticamente, avaliando os “4Ss (Sustentabilidade, Soberania, Solidariedade, Segurança)” nos três níveis do processo de reprodução (Geral, Particular e Individual). Tal esforço resulta, por sua vez, em uma metanarrativa (qualitativa) e uma metainferência (quantitativa). Toda essa proposta metodológica de Breilh está profundamente ancorada na dialética marxista. Essa abordagem propõe uma superação da lógica positivista e cartesiana, criticada nos capítulos anteriores, que enxerga o mundo em fatores isolados, para compreendê-lo como uma totalidade em constante movimento, impulsionada por contradições. O autor aplica essa lente para entender a saúde não como um objeto estático, mas como um processo dinâmico e contraditório, inseparável da crítica à economia política e ao modo de produção que gera a "civilização doentia" mencionada no título. Nesse sentido, o grupo de estudos cumpre um papel fundamental de reativar e fortalecer o debate marxista no âmbito da Saúde Coletiva na universidade. Ao nos debruçarmos sobre a Epidemiologia Crítica, não estamos apenas aprendendo um método alternativo, mas resgatando uma tradição de pensamento que insiste na raiz social, econômica e política dos problemas de saúde. A contribuição do grupo é, portanto, a de formar pesquisadores capazes de ir além das intervenções que apenas mitigam efeitos, fomentando o desenvolvimento de uma práxis que aponte para a transformação estrutural das condições de vida e saúde. Assim, Jaime Breilh traz, no cerne de sua crítica, a necessidade de superar uma leitura superficial da realidade, assim como do olhar contextualizado em uma sociedade neoliberal e produtivista. Jaime desperta nossa atenção para um olhar mais completo, integrado, que traz não apenas a avaliação de diferentes fatores políticos, históricos e socioeconômicos, na lógica linear das “causas das causas”, mas de maneira que considera os movimentos de subsunção dessas dimensões, de como se comportam e se atravessam entre as diferentes esferas da experiência e da vivência humana. Destaca-se também a atual e necessária discussão sobre a diferença entre os conceitos de determinação social e determinantes sociais em saúde, tomadas frequente e equivocadamente como equivalentes. O levantamento histórico dos movimentos intelectuais críticos da América Latina na discussão de tais conceitos nos lembra que precisamos olhar para os nossos e para uma discussão que já vem sendo feita aqui há muito tempo, mas que segue apagada pela hegemonia de conceitos e teóricos do norte global. Nosso grupo se encerra na mesma semana de realização do Simpósio, quando nos encontramos pessoalmente com o professor e tivemos a oportunidade não apenas de esclarecer nossas dúvidas, mas de absorver seu encanto e engajamento com a discussão. Para além da discussão conceitual, a aproximação com o professor deu impulso a um movimento crítico, que busca uma saúde pertencente aos povos. Jaime reforça a importância e a potência de nossa produção como pesquisadores brasileiros, resgata o movimento da Reforma Sanitária e a construção da Saúde Coletiva e como ela se diferencia, com suas particularidades da Saúde Pública. A importância da troca de conhecimentos, da construção de redes, da conversa entre diferentes áreas e da agregação de conceitos que não se contrapõem por serem diferentes, mas justamente por sua diferença, se complementam e se tornam imprescindíveis no acolhimento, no cuidado e na produção de uma saúde justa, equitativa, universal e para todos, todas e todes.
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