Autoanálise do desgaste mental provocado pelo trabalho docente no ensino superior privado
retomando a determinação social para compreender a saúde
DOI:
https://doi.org/10.14295/2764-4979-RC_CR.2025.v5.142Palavras-chave:
Determinação Social da Saúde, Saúde do Trabalhador, Desgaste MentalResumo
Este estudo apresenta as linhas gerais de uma autoanálise da relação entre o desgaste mental e o trabalho docente em uma instituição de ensino superior (IES) privada, perfazendo um período de quatro anos, de agosto de 2020 a julho de 2024, em que atuei como professor do curso de Psicologia de uma dessas instituições. Parto do referencial teórico da Medicina Social Latino-Americana para identificar a relação entre o processo de produção e o de saúde-doença, evidenciando a intensificação do processo de trabalho em conformidade com as necessidades de valorização da mercadoria, no caso a educação. Para explicitar a produção do desgaste mental, compreendido como a perda das capacidades potenciais e/ou efetivas do sujeito em suas dimensões psíquica (afetiva, volitiva e cognitiva), orgânica e funcional, utilizo o método biográfico, percorrendo os pontos centrais de minha história de vida, e busco analisar os patamares do processo de determinação do desgaste mental – o local de trabalho, a empresa e o contexto regional/nacional – em seu potencial ameaçador e/ou violador da minha constituição subjetiva. A autoanálise visa, diante de uma declarada crise de saúde mental no mundo do trabalho, reafirmar a importância e a radicalidade dos preceitos marxistas para a compreensão das formas como vivem, adoecem e morrem as pessoas que trabalham e para a transformação dessa realidade. Do ponto de vista metodológico, busca formalizar uma estratégia de elucidação da relação entre trabalho e sofrimento mental, para além das limitações impostas pelas noções de nexo causal e de psicopatologia. A IES em questão surgiu na cidade de São Paulo a partir de um colégio fundado por professores na década de 1960. A instituição se tornou faculdade na década seguinte, na esteira do grande estímulo ao ensino superior privado dado pela ditadura empresarial-militar, e universidade na década de 1990, quando houve uma segunda onda de expansão do ensino privado através de políticas neoliberais. Nos anos 2000, com o ingresso de grandes fundos de investimento no mercado privado da educação, o grupo educacional firmou parceria com empresas e fundos internacionais para dispor de capital estrangeiro para novas aquisições. Desde 2007, o grupo adquiriu outras 12 IES e criou um núcleo de ensino a distância com mais de 1200 polos pelo país. Em 2021, o grupo fez a primeira oferta pública inicial de ações na bolsa de valores de São Paulo, aderindo às políticas de governança corporativa requeridas para tanto. É nesse contexto de transformações organizacionais que visam a intensificação do processo de valorização que se dá minha contratação como docente do curso de Psicologia da IES, em 2020. Naquele ano, 3.052 empregadas(os) foram desligadas(os) do grupo e apenas 1.298 novas contratações foram realizadas. Junto a esse enxugamento, operou-se um processo de rebaixamento de salários: colegas demitidas(os) do curso de Psicologia no semestre anterior recebiam entre duas e três vezes mais por hora/aula do que o valor que viria a receber. Além disso, a IES diminuiu o número de créditos das disciplinas, logo, de horas/aula por turno; migrou disciplinas do ensino presencial para o ensino a distância; e aumentou o número de estudantes por sala (ensalamento). O desgaste intenso caracterizou minha atuação desde as primeiras semanas de trabalho, das altas demandas impostas durante o ensino remoto síncrono, devido às restrições da pandemia de Covid-19, às muitas horas de trabalho não-remunerado no horário entre aulas para preparar materiais e corrigir avaliações, à disponibilidade para manejar demandas de estudantes dentro e fora das salas virtuais. Com a retomada das atividades presenciais, outras cargas, também excessivas, passaram a determinar o desgaste: o deslocamento entre os cinco campi da IES na cidade de São Paulo em que havia curso de Psicologia; o sono insuficiente para reparar o organismo já que trabalhava nos turnos matutino e noturno; o ensalamento, agora experimentado in loco; a falta de equipamentos nas salas de aula; a incapacidade de realizar projetos de extensão; a ausência de remuneração por orientação de pesquisa, de plano de carreira, de apoio à formação docente. A trajetória laboral que vivi na instituição em questão é marcada pela sensação de que cada semestre era pior do que o anterior, numa progressiva desidratação não apenas da relação de trabalho, mas, do que é essencial, da capacidade de formar psicólogas com qualidade. Esse sentido primordial da existência de um curso de Psicologia, e finalidade para qual construí minha carreira como psicólogo, docente e pesquisador, era cotidianamente precarizado, amputado ou mesmo impedido diante das demandas de intensificação da acumulação de capital que guiavam as políticas da IES. A cada período, sob as transformações organizacionais impostas, a constatação de que a educação era uma finalidade marginal na instituição se tornava mais evidente, e a impossibilidade de evitar mudanças mais agudas, com maiores repercussões sobre a vida funcional e financeira, mesmo com os pedidos de apoio do sindicato da categoria, levaram a um sentimento profundo de desesperança. O ensalamento e a aproximação das histórias de vida das(os) estudantes intensificavam o sofrimento provocado pela impossibilidade de compreender as demandas pedagógicas de cada um(a) e de propor estratégias de aprendizagem voltadas a cada pessoa/grupo. O modelo de formação impunha a adoção de uma postura conteudista e orientada à aquisição de técnicas, por mais que os discursos institucionais afirmassem, eventualmente, a necessidade de uma capacidade crítica de análise da realidade. O resultado para minha saúde, objeto desta análise, foi um processo de intensificação do sofrimento, irritabilidade, crises de ansiedade e fragilização da identidade profissional docente, o que me levou a pedir demissão em julho de 2024, tanto para cursar um estágio pós-doutoral quanto para me afastar daquele ambiente de trabalho.
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